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Artigo · Captação e patrocínio

Como captar patrocínio para evento

Captar patrocínio para evento é vender audiência, não palco. A empresa não compra o seu show: ela compra o acesso a um público específico, num momento específico, com o nome dela junto. Quem entende isso para de mandar convite e começa a montar proposta. O caminho é sempre o mesmo: descobrir de que bolso sai o dinheiro, medir o que você tem para entregar, transformar isso em cotas com entrega escrita, montar uma lista curta de empresas que falam com o mesmo público e procurar essas empresas na época em que elas ainda têm orçamento.

  • Por Luciana Leitte
  • Publicado em
  • Leitura 13 minutos
Galpão de evento com treliças de luz acesas sobre uma passarela vazia durante a montagem
A montagem que ninguém vê é o que o patrocinador está comprando. Foto de Dawn Lio, Pexels.

Quase toda captação de patrocínio que não dá certo morre do mesmo jeito. O produtor monta um convite bonito, escreve que o evento vai ser incrível, anexa a arte do cartaz e manda para quarenta empresas de uma vez. Três respondem agradecendo, as outras somem. Aí vem a conclusão errada: que ninguém patrocina evento, que o mercado está fechado, que só quem tem padrinho consegue.

O que aconteceu foi outra coisa. Aquele convite não pediu patrocínio, pediu doação. Patrocínio é compra, e compra precisa de três coisas que o convite não tinha: o que está sendo vendido, para quem, e por quanto. Este artigo mostra como montar essas três coisas, na ordem em que elas se constroem, e como chegar na empresa certa antes de o orçamento dela fechar.

Cena 1De que bolso sai o dinheiro

Antes de escrever uma linha de proposta, é preciso saber de onde o dinheiro sai. São bolsos diferentes, com donos diferentes, prazos diferentes e critérios diferentes. Quem bate numa porta só está reduzindo a própria chance por desconhecimento.

  • Verba de marketing da empresa. É o bolso mais direto. A empresa gasta aquele dinheiro de qualquer jeito, em mídia, em ponto de venda, em ação promocional. A pergunta que ela faz é simples: o seu evento entrega mais do que o mesmo valor entregaria em anúncio. Quem decide costuma ser marketing ou trade marketing, e o orçamento fecha com meses de antecedência.
  • Imposto, pela lei de incentivo. Se o evento tem natureza cultural e projeto aprovado, parte do patrocínio pode sair do imposto devido pela empresa em vez da verba de marketing. Muda tudo na conversa, porque muda quem decide e qual o custo real para o patrocinador. O mecanismo inteiro está em como funciona a Lei Rouanet, e existem ainda as leis municipais e estaduais de incentivo, que seguem a mesma lógica em escala menor.
  • Edital público ou privado. Não é patrocínio no sentido estrito, mas entra na mesma conta de viabilidade do evento e costuma ser a parte do recurso que não depende de convencer ninguém, só de cumprir regra e prazo. Vale acompanhar as chamadas abertas em editais de cultura abertos.
  • Permuta. Bebida, equipamento de som, impressão, hospedagem, transporte. Não entra como dinheiro no caixa, mas sai da planilha de custo, o que dá no mesmo resultado prático. Permuta é a porta mais fácil de abrir com fornecedor local e muitas vezes é a primeira cota fechada de um evento novo.

Um evento de porte médio raramente se paga por um bolso só. O normal é somar cota de marketing, um ou dois fornecedores em permuta e, quando cabe, recurso incentivado. Montar a captação olhando para os quatro desde o começo evita a correria de última hora que derruba preço de cota.

Cena 2O que você vende de verdade

Você não vende o palco. Não vende o artista, não vende a data, não vende a emoção da noite. Você vende acesso a um público específico, num momento em que esse público está disponível e de bom humor, com a marca do patrocinador junto da experiência.

Essa diferença não é filosofia, é o que muda a proposta de lugar. Quem vende o palco escreve sobre a programação. Quem vende audiência escreve sobre quem está na plateia, quanto tempo essa pessoa fica, o que ela consome, por onde ela chegou e o que ela leva para casa.

A palavra que mais aparece em proposta ruim é visibilidade. Visibilidade não é entrega, é vaga demais para ser cobrada e vaga demais para ser auditada depois. Troque por entrega contável: logo no telão em tantos momentos, tantos posts no perfil do evento com a marca, ativação de tantos metros no espaço, tantos ingressos de cortesia, marca no copo oficial, menção no release enviado para a imprensa.

Cena 3Os números que você precisa ter

Antes de procurar a primeira empresa, monte a sua base de dados. Nada aqui precisa de pesquisa cara. Precisa de honestidade sobre a origem de cada número, porque a origem vai ser perguntada.

  • Público estimado, e de onde vem a estimativa. Edição anterior com venda de ingresso, capacidade do espaço, contagem da portaria, dado do produtor parceiro. Escreva a fonte ao lado do número.
  • Perfil de quem vai. Faixa de idade, cidade e bairro de origem, se vem sozinho ou acompanhado, o que consome no evento. Dado de venda de ingresso e de bar já conta muita coisa.
  • Base própria. Seguidores do perfil do evento, lista de e-mail, grupo de WhatsApp, cadastro de edições anteriores. Isso é mídia que você entrega sem pagar ninguém.
  • Mídia da edição anterior. Matéria publicada, citação em rádio, post de perfil grande, clipping. Guarde link e data de tudo, sempre.
  • Tempo de permanência. Quanto tempo a pessoa fica no evento. Isso vale ouro para quem quer fazer ativação de experiência, porque ativação precisa de tempo para acontecer.
  • Pontos de contato disponíveis. Palco, telão, backdrop, pulseira, copo, credencial, grade de programação impressa, perfil nas redes, e-mail para a base, área de ativação no chão do evento.

Se é a primeira edição e não existe histórico, diga que é a primeira edição. Inventar número é o atalho mais caro da captação, porque a empresa cobra o número depois, no relatório, e aí você perde a próxima edição junto com a atual. Primeira edição vende o histórico de quem produz, a parceria com o espaço, a base própria e a lista de artistas confirmados.

Cena 4O dossiê, página por página

O dossiê de patrocínio é o documento que circula dentro da empresa depois que você sai da sala. Ele precisa se explicar sozinho, porque quem decide muitas vezes não é quem falou com você. Oito a doze páginas bastam, e cada uma tem função.

  1. Capa. Nome do evento, data, cidade, edição. Sem frase de efeito.
  2. O evento em uma frase. O que é, para quem, quando e onde. Se precisa de dois parágrafos para explicar, o evento ainda não está claro nem para você.
  3. Quem vai. Público com número e fonte, perfil, origem. Esta é a página que decide a leitura.
  4. Prova. Fotos da edição anterior, números entregues, clipping, depoimento de patrocinador antigo. Em primeira edição, histórico de quem produz.
  5. Mapa da marca no evento. Onde exatamente a marca aparece, com foto ou planta mostrando os pontos.
  6. Cotas. Uma página por cota ou uma tabela comparando as três, sempre com a entrega item por item.
  7. Calendário. Data de fechamento de cota, data de entrega de material, data do evento, data do relatório final.
  8. Quem assina e como falar. Nome, telefone, e-mail, CNPJ da produtora.

Mande o dossiê em PDF leve, com nome de arquivo que se entenda sozinho na pasta de downloads de quem recebeu. Arquivo chamado proposta final v4 revisada já entrega o quanto aquilo foi improvisado.

Cena 5Como montar as cotas

Cota não é nível de generosidade, é pacote de entrega. Ouro, prata e bronze sem lista do que cada uma contém é exatamente o tipo de proposta que a empresa arquiva. O caminho para montar cota boa é de baixo para cima, não de cima para baixo.

Comece pela planilha de custo do evento inteiro. Depois decida que parte do custo vai ser coberta por patrocínio e que parte vem de bilheteria, bar ou edital. Esse valor é a meta de captação. Só então quebre a meta em cotas, olhando para o que cada cota custa para você executar.

Esse último ponto é o que mais escapa. Ativação de marca no chão do evento ocupa espaço que poderia ser de venda, consome energia, exige equipe e às vezes exige segurança. Cota com ativação grande custa mais caro de entregar, e o preço precisa refletir isso. O mesmo vale para cortesia: ingresso de cortesia é ingresso que você não vendeu.

  • Três cotas resolvem. Mais do que isso confunde e canibaliza. Uma cota alta com exclusividade, uma intermediária com boa presença e uma de apoio acessível para empresa local.
  • Exclusividade só do que você consegue cumprir. Vender exclusividade de categoria para uma cervejaria e depois fechar permuta com outra é o jeito mais rápido de virar réu em contrato.
  • Deixe espaço para cota sob medida. Empresa grande quase sempre quer algo que não está na tabela. Ter a planilha de custo na mão permite responder no mesmo dia.
  • Escreva prazo de fechamento. Cota sem data de corte não fecha, porque sempre dá para decidir na semana que vem. A data de produção de material é o corte natural e é um motivo verdadeiro, não pressão de vendedor.

Cena 6A lista de empresas certas

A lista da maioria dos produtores tem o mesmo defeito: é feita de empresas grandes e conhecidas, que recebem centenas de propostas por ano e têm processo fechado para isso. Lista boa é feita por afinidade de público, não por tamanho de marca.

  • Quem já patrocina evento parecido na sua cidade. Olhe os backdrops dos eventos do seu nicho nos últimos dois anos. Quem patrocinou já tem verba, já entende o formato e já decidiu que gosta.
  • Quem vende para o mesmo público. Se o seu público é jovem e sai à noite, a lista tem bebida, aplicativo, telefonia, moda, cerveja artesanal e academia. Se é família, a lista muda inteira.
  • Quem tem ponto de venda perto do evento. Comércio do entorno ganha movimento no dia e costuma fechar cota pequena com rapidez, muitas vezes em permuta.
  • Fornecedor do próprio evento. Quem já vai ganhar dinheiro com o evento tem motivo concreto para virar patrocinador e aumentar a própria exposição.
  • Empresa que abriu operação nova na praça. Operação nova tem verba de lançamento e precisa aparecer rápido.

Uma observação que economiza tempo em captação incentivada: empresa no Simples Nacional não consegue usar o benefício fiscal, então oferecer cota incentivada para comércio pequeno é conversa que não termina bem para nenhum dos dois lados. Para esse perfil, a cota certa é a de apoio, com verba de marketing ou permuta. A lógica inteira do lado incentivado está em como conseguir patrocínio para projeto cultural.

Vinte empresas bem escolhidas rendem mais do que duzentas tiradas de lista pronta. E a lista precisa ter nome de gente, não só nome de empresa: quem é o responsável por marketing, por trade marketing ou por comunicação daquela operação.

Cena 7Abordagem e follow-up

A primeira mensagem não manda o dossiê. Ela conquista o direito de mandar o dossiê. Três linhas: o que é o evento, quem é o público em número, e uma frase dizendo por que aquela empresa especificamente. Pergunte se pode enviar a proposta e para qual e-mail. Simples assim.

Mande o dossiê no mesmo dia da resposta, nunca três dias depois. E registre em algum lugar: empresa, pessoa, data do contato, canal, o que ficou combinado. Captação se perde muito mais por desorganização do que por falta de interesse do outro lado.

O follow-up tem hora. Primeiro retorno em cinco dias úteis, segundo em dez, terceiro quando houver notícia nova de verdade: artista confirmado, outra marca fechada, matéria publicada. Notícia nova é motivo legítimo para voltar, insistência sem motivo queima a próxima edição.

Quando vier o não, transforme em informação. Três perguntas resolvem: em que mês vocês fecham o orçamento do ano que vem, quem é a pessoa que decide esse tipo de ação, e existe algum formato que faria sentido para vocês. Produtor que faz essas três perguntas sai da conversa com a próxima captação meio pronta.

Cena 8Contrato, entrega e relatório

Cota fechada no WhatsApp não é cota fechada. O contrato precisa listar a entrega item por item, o prazo de pagamento, a data limite para a marca enviar os arquivos de identidade visual, o que acontece se o evento mudar de data e o que acontece se a marca não mandar o material a tempo. A lógica de contrato de palco está em contrato de show e boa parte das cláusulas se aproveita.

Na produção, cada entrega de patrocínio vira linha de checklist, com responsável e prazo, junto com o resto da operação. A marca no telão depende de arquivo recebido e de operador avisado. A ativação depende de ponto de energia e de espaço reservado na planta. Nada disso se resolve na véspera. O checklist de produção de eventos existe exatamente para essas linhas não caírem.

E então vem a parte que quase ninguém faz, e que é a que renova contrato: o relatório final. Até quinze dias depois do evento, entregue um documento com os números reais de público, as fotos de cada ponto onde a marca apareceu, o clipping de imprensa, os posts com os números de alcance e um comparativo entre o que foi prometido e o que foi entregue, inclusive o que não deu certo.

Relatório honesto, com o que falhou escrito, é mais convincente do que relatório perfeito. Quem recebe sabe que evento tem imprevisto, e a honestidade do documento é o que faz a empresa confiar no número que está do lado. Esse documento é a primeira página da proposta do ano que vem, e é por isso que ele se paga.

Cena 9Os erros que matam a proposta

  • Mandar o mesmo PDF para todo mundo. Dá para ver de longe, e a empresa entende que não é prioridade de ninguém.
  • Pedir apoio em vez de propor negócio. Apoio vai para a fila da doação, que é outra fila, mais lenta e menor.
  • Prometer alcance que não se consegue medir. No relatório a conta aparece, e aí já era.
  • Procurar com trinta dias. O preço da cota cai na mesma proporção da pressa.
  • Falar com a pessoa errada. Dono de empresa grande não decide patrocínio, marketing decide.
  • Vender exclusividade sem controlar a categoria. Vira problema jurídico no dia do evento.
  • Sumir depois do evento. É o erro mais caro de todos, porque joga fora a captação do ano seguinte, que já estava quase pronta.

Captação de patrocínio é processo, não sorte. Tem base de dados, tem documento, tem lista, tem calendário e tem relatório. Produtor que monta esse processo uma vez usa ele em todas as edições seguintes, e cada edição fecha mais rápido que a anterior, porque a prova vai se acumulando. Produtor que improvisa recomeça do zero todo ano, e todo ano conclui que ninguém patrocina evento.

Se você está montando um evento agora e quer esse processo rodando desde o começo, a LL Cultural faz isso desde a primeira planilha de custo até o relatório que vai para o patrocinador. Vale para festival, para evento corporativo e para temporada de espetáculo. Veja como produzimos evento corporativo ou fale com a produção pelo botão aqui do lado.

Perguntas frequentes

O que mais nos perguntam

As dúvidas que aparecem em toda primeira reunião de captação, respondidas sem rodeio. Respondemos em até 24 horas úteis.

Como conseguir patrocínio para um evento?

O caminho tem quatro passos, nesta ordem: medir o que você tem para entregar (público, perfil, pontos de contato e mídia), transformar isso em cotas com entrega escrita item por item, montar uma lista curta de empresas que vendem para o mesmo público e procurar essas empresas com antecedência suficiente para entrar no orçamento delas. Convite genérico pedindo apoio não é captação. O que faz a empresa responder é uma proposta que mostra quem ela alcança e o que ela recebe em troca.

Quanto cobrar por uma cota de patrocínio?

O preço sai da entrega, não do sonho. Some o que a cota custa para você executar, inclusive produção de material, mão de obra e espaço perdido de venda, e compare com o que o mesmo dinheiro compraria para aquela empresa em mídia paga ou em ação de ponto de venda. Cota precisa fazer sentido como investimento de marketing, não como favor. Evite publicar tabela fixa na internet: cada edição muda público, praça e entrega, e número velho na internet derruba negociação boa.

Dá para patrocinar evento pela Lei Rouanet?

Depende do evento e do enquadramento. Projeto cultural aprovado pode receber patrocínio incentivado, e aí o dinheiro sai do imposto devido pela empresa, não da verba de marketing dela. Evento comercial puro não entra nesse caminho e é patrocinado com verba de marketing mesmo. Os dois caminhos convivem e muita vez o mesmo evento tem cotas dos dois tipos. Como funciona o lado incentivado está em como funciona a Lei Rouanet.

Com quanto tempo de antecedência procurar patrocinador?

Bem mais do que a maioria procura. Empresa de porte fecha o orçamento de marketing do ano seguinte no último trimestre do ano corrente, e o que não entrou ali só entra por sobra ou por verba de ocasião. Para evento de porte médio, comece a conversar seis meses antes, no mínimo. Procurar com trinta dias não é captação, é pedir socorro, e o preço da cota cai junto com o prazo.

O que colocar no dossiê de patrocínio?

O que o evento é em uma frase, quem é o público com número e perfil, a prova da edição anterior ou do histórico de quem produz, o mapa de pontos de contato da marca, as cotas com entrega item por item, o calendário com as datas que importam para o patrocinador, quem assina e como falar com você. Oito a doze páginas resolvem. Dossiê de trinta páginas não é lido até o fim por ninguém.

Meu evento é a primeira edição e não tem histórico. Dá para captar?

Dá, desde que você não finja ter histórico que não tem. Número inventado é descoberto na primeira pergunta e queima a relação para as próximas edições. Na primeira edição, venda o que é verdade: o histórico de quem produz, a base própria que você já tem, a parceria com o espaço e a lista de confirmados. E negocie com o que a primeira edição tem de melhor, que é preço de entrada menor em troca de preferência de renovação escrita em contrato.

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