A parte mais citada da Lei Rouanet é a aprovação. A que derruba projeto bom é o fim: o momento de provar, documento por documento, que o dinheiro incentivado virou aquilo que estava escrito na proposta. Vimos produtor experiente travar a próxima temporada porque a prestação do ano anterior ficou pendente, e vimos estreante entregar em uma semana porque guardou tudo desde o começo. A diferença entre os dois nunca foi talento. Foi organização.
Este guia mostra o que o Ministério da Cultura cobra, como a conta do projeto organiza a prova financeira, quais documentos montam o dossiê e quais erros aparecem com mais frequência em diligência. Vale para a Lei Federal de Incentivo à Cultura e serve de base para leis estaduais e municipais, que pedem quase as mesmas coisas com nomes diferentes.
Cena 1A prestação de contas não começa no fim
Formalmente, o prazo de entrega corre a partir do encerramento do período de execução aprovado. O número de dias está no próprio Salic e na instrução normativa que vale para o seu Pronac, e essa regra já mudou mais de uma vez. Confira sempre no sistema e no portal do Ministério da Cultura, nunca na lembrança de um projeto antigo.
Na prática, a prestação começa no dia em que o primeiro real entra na conta. Nota fiscal sem o número do Pronac, pagamento feito pela conta pessoal, foto que ninguém tirou na estreia e lista de presença que nunca foi recolhida são perdas que não se recuperam depois. Não existe como reconstituir, meses depois, uma prova que precisava ser produzida no dia.
Por isso o primeiro movimento é simples e custa nada: abra uma pasta do projeto, com subpastas por tipo de documento, e combine com a sua equipe que nada se paga sem comprovante arquivado na hora.
Cena 2A conta do projeto manda no resto
O recurso incentivado entra em uma conta bancária específica, vinculada ao projeto, e só pode sair de lá para pagar o que está na planilha aprovada. Essa regra, que parece burocracia, é o que torna a prova financeira possível. Guarde três princípios:
- Um pagamento, um rastro. Transferência identificada para o CNPJ ou o CPF do fornecedor, com o valor igual ao da nota. Saque em espécie para pagar gente é o caminho mais curto para a diligência.
- Nada de mistura. A conta do projeto não paga despesa de outro trabalho, nem adianta dinheiro para a produtora. Se faltou recurso e alguém pagou do próprio bolso, isso precisa de tratamento formal antes, não depois.
- O rendimento é do projeto. Aplicação financeira do saldo rende, e esse rendimento segue a mesma regra do principal: ou é usado conforme autorização, ou volta para a União no fim.
No encerramento, saldo não utilizado e rendimentos são devolvidos por guia de recolhimento, e o comprovante da devolução entra no dossiê. Sobra em projeto incentivado não é lucro de produção.
Cena 3Os documentos que montam o dossiê
A lista exata aparece no próprio Salic quando a prestação é aberta, e muda conforme o porte e a natureza do projeto. A estrutura, porém, é sempre a mesma. Organize em quatro blocos:
- Relatório de cumprimento do objeto. O texto que conta o que foi executado, onde, quando, para quantas pessoas e com qual equipe. Compare item por item com o que foi aprovado e explique cada diferença. Relatório honesto sobre uma mudança passa melhor do que relatório bonito que o resto dos documentos desmente.
- Comprovação financeira. Notas fiscais e recibos com a identificação do Pronac, contratos de fornecedor e de equipe, relação de pagamentos, extratos completos da conta do projeto do primeiro ao último dia, comprovantes de recolhimento de tributos e encargos e, quando houver, a guia de devolução de saldo.
- Registro de execução. Fotos com data, vídeo, programa, ficha técnica, lista de presença ou relatório de bilheteria, clipping de imprensa e prints das publicações. É o bloco que prova que o projeto existiu fora do papel.
- Contrapartidas e divulgação. A prova de que o acesso prometido aconteceu e de que as marcas obrigatórias apareceram onde deviam aparecer.
Um cuidado que economiza semanas: nomeie os arquivos de forma legível, com data e fornecedor, e monte uma planilha de índice ligando cada despesa da planilha aprovada ao arquivo correspondente. Quem analisa precisa achar. Dossiê com cento e vinte arquivos chamados documento final atrasa por motivo bobo.
Cena 4Contrapartidas e divulgação, as duas que mais escapam
Contrapartida de democratização de acesso é compromisso, não intenção. Se o projeto prometeu sessão gratuita, cota de ingresso para escola pública, oficina aberta ou ingresso a preço popular, isso precisa ter acontecido e precisa estar documentado: ofício para a instituição parceira, lista de presença assinada, foto da sessão, mapa de bilheteria com a cota identificada.
A divulgação tem a mesma força. As marcas obrigatórias, do Ministério da Cultura e dos patrocinadores, seguem o manual de aplicação vigente, com tamanho e posição definidos. Isso vale para cartaz, flyer, programa, cenário, painel de palco, post, legenda, release e anúncio pago. Reunir esse material depois do evento é difícil, porque arte circula em grupo de WhatsApp e desaparece.
A solução é de produção: toda peça aprovada vai, no mesmo dia, para a subpasta de divulgação, em arquivo aberto e em imagem final, com o print de onde foi publicada. É o mesmo trabalho que a sua comunicação já faz, só guardado no lugar certo. No nosso fluxo, essa pasta e a planilha de índice são entregues ao proponente junto com o relatório de público, exatamente para esse fim.
Cena 5O passo a passo no Salic
Com o dossiê pronto, a entrega em si é curta. A sequência prática é esta:
- Confirme o encerramento da execução. Se o projeto não cumpriu o prazo original, verifique se houve prorrogação autorizada antes de abrir a prestação.
- Acesse o projeto pelo número do Pronac no Salic, com o login do proponente, e abra a área de prestação de contas.
- Leia a lista de documentos que o sistema pede para o seu caso e marque, na sua planilha de índice, qual arquivo responde a cada item. O que faltar, resolva antes de começar a subir.
- Preencha o relatório de cumprimento do objeto e a parte financeira, lançando as despesas conforme a planilha aprovada, com as justificativas de remanejamento quando houver.
- Anexe os arquivos em PDF legível, dentro dos limites de tamanho do sistema, e confira se cada upload de fato subiu.
- Devolva o saldo por guia de recolhimento, se houver, e anexe o comprovante.
- Envie, guarde o protocolo e salve uma cópia completa do que foi enviado. Esse protocolo é a sua prova de entrega no prazo.
- Acompanhe a análise. Pode vir diligência pedindo esclarecimento ou documento complementar, com prazo próprio para responder. Diligência respondida no prazo é rotina. Diligência ignorada é o que vira reprovação.
Cena 6Sete erros que travam a prestação
- Pagar fora da conta do projeto. Despesa paga por conta pessoal ou da produtora não tem rastro aceitável.
- Nota sem identificação do Pronac ou emitida para outro CNPJ que não o do proponente.
- Remanejar rubrica sem autorização. Mover dinheiro entre itens tem regra. Fazer primeiro e justificar depois raramente passa.
- Executar fora do período aprovado sem prorrogação formal registrada no sistema.
- Contrapartida prometida e não comprovada. O item que mais aparece em diligência, e o mais fácil de evitar.
- Marcas aplicadas fora do manual ou material de divulgação que ninguém guardou.
- Deixar tudo para a última semana. Extrato antigo, fornecedor que fechou e equipe dispersa transformam uma tarefa de dias em um problema de meses.
Nenhum desses erros é sobre má intenção. São falhas de rotina, e falha de rotina se resolve com combinado escrito no começo do projeto.
Cena 7Quando o prazo aperta ou já passou
Se a data está chegando e o dossiê não está pronto, a pior escolha é o silêncio. Verifique no Salic se o caso admite prorrogação de prazo de prestação e protocole o pedido com justificativa antes do vencimento. Pedido feito antes é pedido. Depois, é defesa.
Se o prazo já venceu, monte o dossiê do mesmo jeito e entregue com a justificativa do atraso. Prestação entregue com atraso e bem documentada tem caminho. Projeto sem prestação nenhuma trava o proponente para novas propostas e pode virar cobrança de valor corrigido, com inscrição em cadastro de inadimplentes da União. Nessa altura, vale sentar com a contabilidade e, se houver valor em discussão, com quem cuida do jurídico do proponente.
E para o próximo projeto, o atalho honesto é o de sempre: planilha aprovada na mão, conta do projeto limpa, pasta organizada desde o primeiro contrato e registro feito no dia do acontecimento. Quem produz assim presta contas sem susto, e fica livre para pensar no palco em vez de pensar no arquivo.
Se você está começando antes, pelo projeto, vale ler também como fazer um projeto cultural passo a passo e como conseguir patrocínio para projeto cultural. E se o projeto já foi aprovado e falta quem produza com a documentação em ordem, veja como escrevemos e produzimos projetos de lei de incentivo.
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