Um mapa de palco bem feito economiza as duas horas mais caras de uma apresentação: as duas horas antes da passagem de som. Com o desenho em mãos, a equipe técnica da casa monta o palco já no lugar certo, puxa a quantidade certa de cabo e deixa a energia onde o equipamento vai estar. Sem ele, monta pelo padrão da casa e desmonta quando o artista chega. Este guia é o complemento visual do rider técnico: lá está o documento escrito, aqui está o desenho que o acompanha.
Cena 1Quem lê o mapa de palco e o que decide com ele
O mapa não é ilustração de proposta. É ferramenta de trabalho de quatro pessoas, e cada uma tira dele uma decisão diferente.
- O técnico de PA conta de quantos canais vai precisar e vê de onde sai cada cabo até a mesa.
- O técnico de monitoração vê quantas vias o palco pede e onde cada caixa de retorno aponta.
- O técnico de luz descobre quem fica na frente e quem fica no fundo, e desenha a luz por área.
- A equipe de palco decide onde entra o praticável, por onde passa o multicabo e quantos pontos de energia puxar.
Por isso o mapa cabe em uma página. Duas páginas viram duas versões em pouco tempo, e na montagem alguém vai estar com a errada na mão.
Cena 2Os oito itens que todo mapa de palco precisa ter
Mapa incompleto gera telefonema, e telefonema no dia do show custa caro. Estes oito itens fecham o assunto:
- Orientação declarada. Escreva, com letra legível, onde é o fundo do palco e onde é a frente. A convenção é fundo em cima e plateia embaixo, mas escrever elimina a dúvida.
- Medidas mínimas em metros. Boca de cena, profundidade e altura livre. Sem elas, ninguém consegue dizer se o show cabe no espaço.
- A posição de cada integrante, identificada pelo instrumento e não pelo nome da pessoa. Quem monta o palco não conhece a banda.
- O que fica no chão: amplificador, praticável, estante, banco, mesa, pedaleira, caixa de instrumento.
- Os retornos numerados, de M1 em diante, com o tipo de cada via. O número e o nome precisam ser os mesmos da input list do rider técnico: quando os dois discordam, a passagem de som vira investigação.
- Os pontos de energia, marcados com a sigla AC, e quantas tomadas cada ponto precisa ter.
- A legenda, explicando cada símbolo usado no desenho.
- O rodapé de identificação: artista, formato da apresentação, versão do mapa, data e contato de quem responde pela parte técnica.
Os dois últimos são os mais esquecidos e os que mais salvam. Legenda é o que permite a alguém de fora entender o desenho sem ligar para o artista, e o rodapé é o que impede que a casa monte o palco por um mapa de dois anos atrás.
Cena 3Exemplo de mapa de palco para explorar
O exemplo abaixo é de um grupo de samba e pagode com sete integrantes, em formação de roda, que é um dos arranjos mais difíceis de explicar por escrito e um dos mais fáceis de entender em desenho. Passe o mouse ou toque em cada linha da legenda para acender a peça no mapa.
Três leituras saem desse desenho sem que ninguém precise explicar nada. A primeira é que o palco precisa ter pelo menos oito metros de boca, porque a roda sozinha ocupa quatro e as pontas precisam de passagem. A segunda é que o teclado fica fora da roda, o que significa cabo mais longo e um ponto de energia próprio. A terceira é que são seis vias de monitoração, não sete, porque dois integrantes dividem um retorno. Esse tipo de informação é o que o técnico da casa precisa para orçar antes do dia, e é exatamente o que uma lista escrita sem desenho não entrega.
Se a sua formação é de banda, com bateria, baixo, guitarra e teclado, o exemplo equivalente está no modelo de rider técnico preenchido, com os 16 canais e as cinco vias já listados bloco a bloco.
Cena 4Como desenhar o mapa de palco, passo a passo
A ordem abaixo é a que usamos para montar o mapa de um artista que ainda não tem o documento. Ela leva de uma a duas horas na primeira vez e dez minutos nas atualizações seguintes.
- 1Fotografe o ensaio de cimaRegistre como o grupo se posiciona de verdade. Uma foto do ensaio tirada de um ponto alto resolve mais do que meia hora de conversa, porque o arranjo real quase nunca é o que se descreve de memória.
- 2Desenhe o retângulo e escreva as medidasComece pelo palco, não pelos músicos. Retângulo, a linha da frente destacada e as medidas mínimas em metros escritas ao lado. Quem lê precisa da escala antes das posições.
- 3Posicione do fundo para a frenteBateria ou percussão primeiro, porque é o que menos se move. Depois os amplificados, depois as vozes e o que fica na boca de cena. Essa ordem evita o desenho em que alguém fica sem lugar.
- 4Marque tudo que ocupa chãoAmplificador, praticável, estante, banco, pedaleira, mesa. É o que define por onde o cabo passa e por onde ninguém passa.
- 5Numere os retornosDe M1 em diante, começando pela voz principal e seguindo da frente para o fundo. Anote o tipo de cada via e quem usa qual.
- 6Marque energia e a chegada do multicaboCada ponto com a sigla AC e o número de tomadas. Indique de que lado o multicabo entra, porque isso muda a metragem de cabo que a casa separa.
- 7Feche com legenda e rodapéLegenda com todos os símbolos, e rodapé com artista, formato, versão, data e contato técnico. Exporte em PDF com nome de arquivo que diga as mesmas coisas, para ele não virar anônimo na caixa de quem recebe.
Sobre ferramenta, a resposta curta é que não importa. Editor de apresentação, editor de desenho online gratuito e até papel quadriculado fotografado com luz boa produzem um mapa aceito em qualquer casa. O que importa é sair legível em PDF, caber em uma página e existir em formato editável, para a próxima versão não começar do zero.
Cena 5Símbolos e legenda: o combinado que evita telefonema
Não existe norma oficial de símbolo de mapa de palco no Brasil, e é justamente por isso que a legenda é obrigatória. O conjunto abaixo é o mais usado no mercado e o que adotamos nos nossos documentos.
| Símbolo | Representa | O que escrever junto |
|---|---|---|
| Círculo | Integrante em pé ou sentado | O instrumento, não o nome da pessoa |
| Retângulo médio | Equipamento no chão: amplificador, praticável, mesa | O que é e a medida, quando ela importa |
| Retângulo pequeno inclinado | Caixa de retorno no chão | O número da via, de M1 em diante |
| Quadrado com a sigla AC | Ponto de energia | Quantas tomadas e para que equipamento |
| Triângulo ou losango | Entrada e saída de cena | Por onde a equipe e o elenco entram |
| Linha tracejada | Caminho de cabo ou limite de área | De onde até onde, quando não é óbvio |
Dois cuidados valem mais do que o desenho inteiro. Use o mesmo símbolo para a mesma coisa em todo o mapa, sem exceção. E se inventar um símbolo próprio, coloque na legenda: símbolo sem legenda não serve para quem não estava na reunião.
Cena 6Mapa de banda, de DJ, de voz e violão e de teatro
O desenho muda de um formato para outro.
- Banda e grupo de samba. O mapa é o caso completo: posição de cada integrante, amplificadores, praticável, retornos numerados e energia. É o formato do exemplo desta página.
- DJ e apresentação eletrônica. O desenho é simples e as medidas são tudo. Marque a largura e a altura da mesa de apoio, se ela é da casa ou do artista, quantas tomadas o ponto precisa e onde fica o retorno. Diga também qual equipamento é levado e qual é esperado no local, porque nesse formato a confusão quase sempre está aí.
- Voz e violão, voz e piano, stand-up e palestra. Mesmo com uma pessoa só no palco, o mapa vale a página. Ele resolve onde fica o banquinho, a estante, o pedestal, a mesa de apoio e o retorno, e evita que a casa monte um palco de banda para uma apresentação intimista.
- Teatro e espetáculo. Aqui o mapa convive com a planta de cenário e com o mapa de luz. Indique o que é fixo e o que se move durante a apresentação, as entradas e saídas de cena e o espaço de coxia necessário. Em temporada, acrescente o que fica montado entre sessões.
Em todos eles a pergunta é a mesma: o que precisa estar pronto antes de o artista subir.
Cena 7Os seis erros que mais aparecem
Estes são os problemas que encontramos com mais frequência quando recebemos o mapa de um artista que vem de fora:
- Mapa sem orientação. Sem dizer onde é a frente, metade das chances é de montar espelhado.
- Posição por nome de pessoa. "João" não diz nada a quem está montando o palco às sete da manhã.
- Retorno sem número. Caixa desenhada sem via identificada obriga o técnico a adivinhar a mistura.
- Mapa sem medida. Desenho bonito e sem metro não permite dizer se o show cabe no espaço.
- Mapa desatualizado. Formação mudou, mapa não. É o erro mais caro, porque ninguém desconfia dele até a montagem.
- Mapa só em imagem de celular, de lado e escuro. O conteúdo pode estar certo e ainda assim não ser lido. PDF em uma página, na horizontal, resolve.
Os dois primeiros e o último são erros de forma, e se consertam em dez minutos. O do mapa desatualizado é de processo: a solução é guardar o arquivo editável em um lugar só, com versão e data no rodapé, e atualizar no mesmo dia em que a formação muda.
Cena 8Como enviar o mapa e com quanta antecedência
Envie em PDF, em uma página, junto com o rider técnico e a input list, com pelo menos 15 dias de antecedência. Nomeie o arquivo com artista, formato e versão. E peça a confirmação por escrito do que o espaço tem e do que será alugado: é esse retorno que fecha o assunto, não o envio. Quem paga cada item não entra no mapa, entra no contrato de apresentação.
Na LL Cultural fazemos as duas pontas. Desenhamos o mapa, a input list e o rider de quem ainda não tem o documento, e entregamos o arquivo editável para o artista manter atualizado. Como produção local de festivais e eventos culturais e de temporadas e turnês de teatro, recebemos o mapa de quem chega de fora, conferimos contra o que o espaço oferece, cotamos o que falta na praça e dirigimos a equipe técnica no dia. São 17 anos de mercado, no marketing e na produção, com mais de 500 projetos artísticos produzidos, e a conta que mais se repete é esta: o documento feito com antecedência custa poucas horas, e a falta dele custa aluguel de última hora.
Luciana LeitteDirige a LL Cultural. Produtora cultural e estrategista de marketing, soma 17 anos de mercado, no marketing e na produção, entre shows, temporadas de teatro, festivais e eventos. Conheça quem dirige.
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