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Artigo · Teatro, show e circulação

Ficha técnica de espetáculo: como fazer a sua

Ficha técnica de espetáculo é o documento de uma ou duas páginas que resume tudo o que a obra precisa para subir em qualquer lugar: nome e sinopse curta, duração, classificação indicativa, quantas pessoas viajam, as dimensões mínimas de palco, o tempo de montagem e de desmontagem, as necessidades de luz, som e energia, e o contato de quem responde pela parte técnica. Ela é o cartão de visita técnico da obra, e não se confunde com o rider técnico, que detalha equipamento item por item e entra como anexo.

  • Por Luciana Leitte
  • Publicado em
  • Leitura 8 minutos
Cortina de veludo fechada, vista do palco, antes da abertura da casa
Antes de a cortina abrir, alguém leu a ficha técnica e disse sim. Foto de Manos Gkikas, Unsplash

Um espetáculo deixa de circular por motivos menos dramáticos do que se imagina. Quase nunca é falta de qualidade, e quase nunca é falta de público. É um arquivo que chega sem dizer quanto tempo dura a montagem, com uma medida de palco que ninguém conferiu, ou com um telefone antigo no rodapé. Do outro lado, quem programa a temporada tem quinze propostas na mesa e uma semana para decidir. Quem explica melhor, avança.

A ficha técnica é o documento que resolve isso. Ela cabe numa página, responde às perguntas que o contratante faria por telefone e deixa o resto nos anexos. Aqui estão os oito blocos que ela precisa trazer, como medir cada número com honestidade, o que muda entre teatro, show e palestra, e um modelo em lista para você copiar e preencher hoje.

Cena 1Ficha técnica não é a mesma coisa que rider

A confusão entre os dois documentos é a origem de boa parte dos problemas. Eles têm leitores diferentes e momentos diferentes.

  • A ficha técnica é lida por quem decide. Curador de festival, programador de teatro, secretaria de cultura, empresa que vai contratar. A pergunta dessa pessoa é simples: eu consigo receber este espetáculo no meu espaço, com a minha equipe e dentro do meu orçamento?
  • O rider técnico é lido por quem executa. Técnico de som, operador de luz, empresa de locação. A pergunta aqui é outra: que equipamento precisa estar montado às quatorze horas?

Na prática, a ficha vai no primeiro e-mail, junto com o release e as fotos. O rider e o mapa de palco vão depois, quando a data já está sendo negociada, e viram anexo do contrato de show. Mandar o rider de doze páginas na primeira abordagem costuma ter o efeito contrário do pretendido: o arquivo não é aberto.

Cena 2Os oito blocos que a ficha precisa trazer

Esta estrutura funciona para teatro, dança, música e palestra, com pequenas variações. Cada bloco são duas ou três linhas, não um parágrafo.

  1. Identificação: nome do espetáculo, companhia ou artista, direção, cidade de origem e ano de estreia.
  2. Sinopse curta: três linhas, no máximo. Quem assiste, o que vê. A versão longa fica no release.
  3. Dados de apresentação: duração em minutos, se há intervalo e de quanto, classificação indicativa, gênero e idioma.
  4. Equipe em turnê: o número total de pessoas que viajam, separado entre elenco e técnica. Esse número define hospedagem, alimentação e transporte, então é o primeiro que o contratante procura.
  5. Espaço cênico: as dimensões mínimas de boca, profundidade e pé direito, a área livre de coxia, o tipo de piso aceito e se o espetáculo se adapta a palco italiano, arena ou espaço alternativo.
  6. Tempos: montagem, passagem ou ensaio, desmontagem e o tempo mínimo que a equipe precisa no espaço antes da abertura da casa.
  7. Necessidades técnicas em resumo: uma linha para luz, uma para som, uma para energia e uma para vídeo, se houver. O detalhe vai no rider.
  8. Contatos: produção e direção técnica, com nome, telefone com DDD, e-mail e a data da última atualização do documento.

Cena 3Como medir o que você declara

Os números da ficha viram compromisso contratual. Declarar por estimativa é o que gera a discussão no dia da montagem. Como medir cada um:

  • Duração: cronometre três apresentações reais e use a mais longa, arredondada para cima em cinco minutos. A plateia muda o ritmo, e a duração de ensaio sempre fica menor que a de público.
  • Montagem e desmontagem: meça num dia de montagem de verdade, com a equipe que costuma viajar, e inclua o tempo de descarga do caminhão. Depois acrescente trinta por cento de folga para o espaço que você ainda não conhece, onde a tomada está longe e o elevador de carga não funciona.
  • Dimensões mínimas: meça o cenário montado com trena, não pela planta do projeto. Declare o mínimo em que o espetáculo acontece inteiro, não o ideal. Se existir uma versão reduzida, diga isso numa linha, porque é ela que abre portas em espaço pequeno.
  • Equipe: conte as pessoas que efetivamente embarcam, incluindo quem dirige a van. Esse número vira passagem, quarto e refeição no orçamento do contratante.
  • Energia: some a potência dos equipamentos que você leva e declare em watts ou amperes, dizendo se precisa de ponto exclusivo. Casa antiga cai a luz no meio da peça por causa de um número que ninguém somou.

Cena 4O que muda entre teatro, show e palestra

A espinha é a mesma, mas o peso de cada bloco muda conforme o formato.

  • Teatro e dança: o bloco de espaço cênico e o de luz são os que decidem. Inclua a planta de luz como anexo e diga se o espetáculo aceita refletores diferentes dos listados, porque quase nenhum teatro tem exatamente o seu mapa.
  • Show e música: o peso vai para o som, o número de canais e os retornos. Aqui a ficha quase sempre vem acompanhada do rider e da lista de canais já na segunda mensagem.
  • Palestra e conteúdo corporativo: o que importa é projeção, áudio de fala, microfone e tempo de teste. A duração costuma ser fechada em bloco, com espaço para perguntas, e isso precisa estar escrito.
  • Espetáculo de rua ou adaptado: declare as condições de solo, de sol e de chuva, e o plano alternativo. Quem programa evento ao ar livre quer ler essa linha antes de qualquer outra.

Cena 5Modelo em lista para copiar

Copie o bloco abaixo para um documento, preencha o que está entre colchetes, exporte em PDF e dê ao arquivo um nome que se entenda sozinho, no padrão Ficha Tecnica Nome do Espetaculo Ano.

  1. Espetáculo: [nome] · Companhia: [nome] · Direção: [nome]
  2. Cidade de origem: [cidade, estado] · Estreia: [mês e ano]
  3. Sinopse: [três linhas]
  4. Duração: [minutos], [com ou sem] intervalo · Classificação: [livre ou idade]
  5. Equipe em turnê: [total] pessoas, sendo [número] em cena e [número] na técnica
  6. Palco mínimo: boca [metros], profundidade [metros], pé direito [metros]
  7. Piso: [linóleo, madeira, outro] · Formatos aceitos: [italiano, arena, alternativo]
  8. Montagem: [horas] · Passagem: [horas] · Desmontagem: [horas]
  9. Luz: [resumo em uma linha, planta em anexo]
  10. Som: [resumo em uma linha, rider em anexo]
  11. Energia: [carga total e se precisa de ponto exclusivo]
  12. Camarim: [quantidade e necessidades básicas]
  13. Anexos: rider técnico, mapa de palco, planta de luz, release, fotos em alta
  14. Produção: [nome, telefone, e-mail] · Direção técnica: [nome, telefone, e-mail]
  15. Atualizado em: [dia, mês e ano]

Cena 6Os seis erros que travam a contratação

  1. Declarar o palco ideal em vez do mínimo. O contratante com espaço menor descarta o espetáculo sem perguntar se cabe uma versão reduzida.
  2. Esquecer o tempo de desmontagem. O teatro tem outro evento na sequência, e essa informação ausente vira conflito de agenda na véspera.
  3. Misturar ficha e rider num arquivo só. Oito páginas de lista de canais afastam quem só queria saber a duração.
  4. Deixar o contato desatualizado. Telefone antigo é proposta perdida em silêncio, porque ninguém avisa que tentou ligar.
  5. Não informar a classificação indicativa. Projeto em escola, em praça ou com recurso público precisa dessa linha, e a falta dela trava a inscrição.
  6. Mandar em formato editável. A ficha sai em PDF. Arquivo de texto aberto se desconfigura, muda de página e perde a tabela no computador de quem recebe.

Cena 7Antes de enviar

Passe os olhos nesta conferência rápida. Ela leva dois minutos e evita a maior parte do retrabalho:

  • Alguém de fora da equipe leu a ficha e entendeu o espetáculo sem precisar perguntar nada?
  • Todos os números foram medidos, e não estimados?
  • O arquivo é PDF, pesa menos de cinco megabytes e abre no celular?
  • O nome do arquivo identifica o espetáculo e o ano?
  • A data de atualização está no rodapé?
  • Os anexos citados existem e estão prontos para enviar na sequência?

Com a ficha pronta, o próximo passo depende de para onde o espetáculo vai. Se o caminho é edital e lei de incentivo, veja como montar o projeto cultural. Se é temporada e venda de ingresso, o roteiro está em como divulgar uma peça de teatro. E se é um dia de evento inteiro para organizar, use o checklist de produção de eventos.

Luciana Leitte em dia de evento, com rádio na mão

Luciana LeitteDirige a LL Cultural. Produtora cultural e estrategista de marketing, soma 17 anos de mercado, no marketing e na produção, entre shows, temporadas de teatro, festivais e eventos. Conheça quem dirige.

Perguntas frequentes

O que perguntam sobre ficha técnica.

Vai inscrever o espetáculo num edital ou negociar uma temporada? Fale conosco no WhatsApp. Respondemos em até 24 horas úteis.

Ficha técnica e rider técnico são a mesma coisa?

Não. A ficha técnica resume o espetáculo inteiro em uma ou duas páginas, para quem decide se consegue receber a obra: duração, elenco, espaço mínimo, tempo de montagem e contatos. O rider técnico é o detalhamento do equipamento, com lista de canais, retornos, instrumentos e iluminação. Quem contrata lê a ficha primeiro e pede o rider depois, quando a conversa avança.

Quantas páginas deve ter uma ficha técnica de espetáculo?

Uma, idealmente, e no máximo duas. A ficha existe para ser lida em dois minutos por alguém que está avaliando vários espetáculos ao mesmo tempo. Tudo o que não couber nela vira anexo: rider técnico, mapa de palco, planta de luz, release e fotos em alta.

Preciso de ficha técnica para me inscrever em edital?

Quase sempre. A maioria dos editais de circulação, de ocupação de espaço e de festival pede a ficha técnica entre os documentos da proposta, porque é por ela que a comissão sabe se o espetáculo cabe no equipamento disponível. Vale deixar uma versão pronta e atualizada antes de a chamada abrir, e não na véspera da entrega.

Quem assina a ficha técnica do espetáculo?

Quem responde pela parte técnica, normalmente o diretor técnico, o operador de luz ou o produtor da companhia, com nome, função, telefone e e-mail. Assinatura aqui significa ter um nome e um contato de quem pode responder dúvidas no dia da montagem, não firma reconhecida.

A LL Cultural monta a ficha técnica do meu espetáculo?

Sim. Como produção, organizamos a ficha junto com a equipe da obra: medimos a montagem e a desmontagem num ensaio real, fechamos as dimensões mínimas, listamos a equipe em turnê e deixamos o rider técnico e o mapa de palco como anexos, no mesmo padrão que o contratante e o edital esperam receber.

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